HONRA DINHEIRO NÃO COMPRA

31/05/2009 at 20:48 (Sem categoria)

Imagem ilustrativa - Caneca[06 de setembro de 2025 – 03:00 – Junk’z – Zona B, não muito longe de Wall Park…]

Seria apenas mais uma história, se não fosse por um detalhe curioso: a transformação de um homem. Eram três da madruga. O Junk’z ainda cheirava a uma noite que parecia não querer acabar. Os mendigos, cantando do lado de fora, faziam sua pequena fogueira flertar com a aconchegante iluminação vermelha do bar. Tomando uns gorós com uns “colegas de trabalho”, eu continuava faturando com as rodadas de queda-de-braço.

Mais um pau começava a comer no corredor das latrinas, quando eis que surge o palhaço. Até onde as esquinas contam, ele era bem macho. Para mim, nunca pareceu. Ainda mais depois do pagamento que recebeu por dar uma de X-9. Se você não conhece essa história, vamos lá… Há cerca de três anos, a duas quadras daqui, o X-9 estava sendo encurralado por cinco caras que ele havia passado para trás. O apagar das luzes denunciava que todos já sabiam o que ia acontecer naquela esquina.

Com a filosofia de que o dinheiro tudo compra, o X-9 apostava em seus bolsos, então cheios, para se safar. Mas ele não aprendera que honra não se compra. Ao tentar subornar a gangue dizendo que tinha muito dinheiro para todos, um deles se aproxima e fala: “Não queremos dinheiro. Vai mostrando o rabo”. Um morador próximo, que assistia tudo de uma fresta em sua janela, disse que o camarada começou a se urinar. Cinco minutos depois, já seco de tanto mijo jogado fora, abaixaram suas calças e formaram fila. Quem diria… Na vez do quinto membro do grupo arrombá-lo, o neném já parecia estar gostando.

Hoje em dia, apesar do trauma, dizem que ele é uma pessoa mais, vamos dizer, alegre. Mas, como nem tudo muda, ele continuou sendo X-9 e mantendo pinta de machão para não perder sua reputação. E é aí que eu entro… O sujeito bebia no Junk’z sem pagar há duas semanas e eu fiquei encarregado de fazer a “cobrança” antes que o infeliz começasse a dar prejuízos em outros locais. Como sempre fui um cara pacífico e que não gosta de brigas, levei-o para o fundo do estabelecimento e fiz minha amistosa proposta: “ou você paga o dono do bar, ou seu cu vai virar uma melancia rachada”. O bar não teve mais problemas financeiros.

Anúncios

Link permanente Deixe um comentário

CAVIAR PARA O JANTAR

10/05/2009 at 20:24 (Sem categoria)

Imagem ilustrativa - Olhos[20 de setembro de 2025 – 05:17 – Brique, Zona C, bem distante de Wall Park…]

Na verdade, tudo o que eu queria era dormir… Mais um dia se passou, e o ar da violência continuava. Brique, o gueto onde eu morava, sofria com crescentes atos de insanidade. Gritos e gemidos assustadores eram ouvidos quase todas as noites. A vizinhança, sedenta por sossego, já implorava por punição há anos.

O lugar havia recebido esse nome por ser todo formado por prédios de tijolos. Um bairro planejado. Mal planejado. Um detalhe luxuoso da época, com clima noir, transformado em sinônimo de desconforto. Morando no último andar de uma dessas antigas construções, eu estava teoricamente seguro de tais atos.

Quarta-feira, duas da manhã, e eu ainda na varanda. Presenciar as estrelas naquele horário era algo comum para mim, pois quase sempre estava acordado. O cheiro do assoalho velho e seco me alcançava. A noite seguia caminhando. Insônia, suor, agonia, desespero. Havia pedido um sonho, e não um pesadelo, mas infelizmente aconteceu novamente…

Eu precisava daquele remédio. O elixir que me tranquilizava. Vinham então os devaneios, geralmente em ordem crescente de perturbação… Conseguia ouvir os sons da consequência, os gritos indefesos, e urros ensurdecedores. Ofensas, roubos, estupros, orelhas pregadas em minhas paredes com fortes marteladas, pessoas com seus olhos arrancados por mim… E eu não entendia o por que…

Quando o devaneio passava, eu me pegava olhando o chão vomitado e minha calça suja de manchas indecifráveis. A sensação então acabava. Mas o pior não era isso. O pior de tudo é que quando eu tinha um pesadelo como esse, eu não estava dormindo, mas sim acordado, o tempo todo. E lá estavam eles, em cima da minha cama, e por toda a casa. Aqueles olhos. Pareciam caviares. E os azulejos brancos do banheiro se tornavam coadjuvantes perto das novas manchas de sangue…

A sociedade caça impiedosamente até hoje o responsável por esses atos. Por isso eu me escondo, mas, na verdade, tudo o que eu queria era dormir…

Link permanente Deixe um comentário

INTERSEÇÃO DE DEVANEIOS

29/04/2009 at 09:57 (Sem categoria)

Imagem ilustrativa - Babuíno[05 de fevereiro de 2023 – 18:45 – Estação de Pesquisas, Zona B, muito longe de Wall Park…]

Estação de Pesquisas em Prol da Humanidade. Nome pomposo que escondia a ambição humana, e onde passei grande parte da minha medíocre vida profissional. As imagens das paredes geladas e descoloridas daquele centro passeiam pela minha mente. A mistura de odores ainda agarra minhas narinas. Final de expediente dos superiores. Início do meu. Com um esterilizador na mão, eu começava minha rotina de manter o local livre de germas e demais impurezas, convivendo com criaturas que vocês jamais imaginariam, jamais suportariam, jamais encarariam. Mas era a melhor forma de eu continuar em contato com a Ciência.

O grande setor dos primatas, que ficava ao lado da área de experimentos com indigentes – e o único que eu não tinha permissão para entrar -, ainda parecia ser o preferido da Estação. Ali ficavam, enjaulados e separados por tipos de experimento, meus queridos babuínos, de todas as formas, inclusive as anomalias. Aliás, o que não era anomalia ali? Primatas clonados, criogenados, siameses, mutantes… Tais criaturas ajudavam-me a refletir, quase que diariamente, sobre o mundo, sobre a vida… O papel delas seria, enquanto vivas, o de alimentar a nossa curiosidade, a nossa arrogância, “em virtude do progresso da Ciência”.

Foi então, numa dessas noites de reflexões, que aconteceu…

A confiança me deu de presente aquele instante. Com a segurança falha e o meu acesso integral às salas dos cientistas, a interseção dos meus devaneios poderia ser concluída. Pensativo, eu dava uma bela olhada naquela sala onde meu pai trabalhou, quando percebi estar sendo observado. Eu não deveria estar ali. Mas, a essa altura, as câmeras não faziam mais diferença. O vigia do turno, saindo de seu posto, entrara em um dos elevadores. As engrenagens, sua tosse podre… Eram os ruídos de seu avanço… De onde eu estava, podia avistar os babuínos. Eles continuavam nos seus lugares, olhando sempre fixo para mim com seus olhos vermelhos, onde quer que eu fosse. Uns com medo, outros querendo me matar…

O elevador, recheado com o vigia obeso, abre-se no meu pavimento. Escuto sua voz me procurando. Agora era tarde pra voltar atrás… Pensando no sofrimento daquelas criaturas e na situação como um todo, fiz o que achei que seria o mais sensato naquele momento: libertá-las. Todas elas. E deixar que a reação tomasse conta da situação…

Link permanente 2 Comentários

Next page »